O rascunho chega limpo, bem escrito, com um “64%” logo na abertura. Ninguém sabe de onde o número veio, mas a frase ficou ótima. É nesse momento que a edição precisa de uma regra, porque o bom gosto sozinho não segura um número convincente.
O risco tem origem no funcionamento da ferramenta. A orientação do Google sobre conteúdo gerado por IA lembra que modelos generativos preveem sequências prováveis de palavras, em vez de buscar fatos, e pede checagem manual antes da publicação, inclusive em metadados. Já o guia do Google sobre conteúdo útil e confiável sugere avaliar se o texto inspira confiança, com fontes claras. Só que fonte clara não prova que toda afirmação seja verdadeira. O método a seguir é proposta nossa, não procedimento do Google.
A regra das quatro travas
Um número só fica no texto se passar por quatro travas. Basta uma reprovação para ele sair ou ser reescrito. Não há média nem nota geral, porque uma conta perfeita não compensa uma origem inexistente.
- Origem: há link para o documento em que o número aparece, e alguém o abriu.
- Base: dá para saber o que foi medido, quantos casos entraram e em qual período.
- Conta: refeito com os dados da origem, o cálculo chega ao mesmo resultado.
- Verbo: a frase afirma só o que o dado permite. “Coincidiu” não vira “causou”.
Três cartões de um caso fictício
A Café Serra Clara é uma marca inventada para este exemplo, e todos os números abaixo também são fictícios. A IA entregou à equipe um rascunho com três afirmações:
- Cartão A: “64% dos consumidores desconfiam de anúncios de café”. Não há link nem pesquisa indicada.
- Cartão B: “O novo expositor fez as vendas subirem 18%”. O relatório interno de maio compara 10 lojas com expositor, com média de 118 pacotes por loja, a 30 lojas sem ele, com média de 100. As 10 foram escolhidas entre as de melhor desempenho.
- Cartão C: “Os pedidos da loja on-line cresceram 15% de março para abril”. O relatório interno registra 2.000 pedidos em março e 2.300 em abril.
| Cartão | Origem | Base | Conta | Verbo | Decisão |
|---|---|---|---|---|---|
| A | Reprova | Reprova | Impossível refazer | Impossível avaliar | Sai do texto |
| B | Passa | Passa | Passa: 18 ÷ 100 = 18% | Reprova | Reescrever |
| C | Passa | Passa | Passa: 300 ÷ 2.000 = 15% | Passa | Fica |
O cartão B é o mais perigoso, porque a conta está certa e dá segurança a uma conclusão que o dado não sustenta. A versão aceitável seria: as 10 lojas com expositor venderam, em média, 18% mais que as 30 sem ele em maio; como já estavam entre as de melhor desempenho, o dado não isola o efeito do expositor.
O cartão C passa porque promete pouco: descreve um crescimento e não explica o motivo. Se a frase ganhar um “graças à campanha”, volta para a trava do verbo.
Como aplicar na próxima pauta
- Liste todos os números do texto, incluindo título, meta description e legendas.
- Abra cada origem. Link sugerido pela IA ainda não é origem verificada.
- Registre o resultado das quatro travas, o link consultado e o nome de quem checou.
- Dê a uma pessoa poder de veto. Se o prazo apertar, cai o número, não a checagem.
O que a regra não resolve
As travas não eliminam alucinação. Elas cobrem números, enquanto nomes, citações e afirmações sem algarismo pedem revisão própria. Um relatório errado também pode passar, se for coerente por dentro. E não temos evidência de que a regra melhore o desempenho em busca ou reduza erros em determinada taxa: trata-se de um critério editorial, que cada equipe precisa testar na própria operação.
Há ainda um custo: algumas frases boas vão morrer. Para quem decide, a troca é clara. Um texto com menos números impressionantes é mais fácil de defender quando alguém perguntar de onde eles vieram.
Para aprofundar
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Sinal / IA & Tecnologia. Reportagem explicativa produzida com auxílio de IA e revisão editorial automatizada.